Naquela tarde, as nuvens negras no céu se baralhavam. Fred estava decorando as janelas com luzes de Natal, mas logo teve que parar e adentrar a casa. Fechou todas as janelas da sala e moveu-se para a lareira, onde ouvia um assombroso estrondo. Depois daquele barulho, era possível ouvir os berros que viam do quarto de cima. Fred subiu as escadas e abriu vagarosamente a porta do quarto de Dora, ela estava assustada na cama.
– O que foi? – perguntou o louro.
– Nada... Foi só um susto – respondeu, se escondendo debaixo do cobertor.
– Oh! Levanta! Falta muita coisa para arrumar na casa ainda!
Dora destampou o rosto e demonstrou desânimo.
– Por que eu tenho que te ajudar? – perguntou a mulher.
– Porque você me prometeu, oras – falou, voltando para o interior da casa.
A chuva começava a aparecer e a cada minuto ficava cada vez mais intensa. Aquilo desanimava profundamente o louro, que tinha esperanças de conseguir arrumar as luzinhas para o Natal. Sentou e começou a refletir.
– Frederico, esquece essa de Natal... – exclamou Dora, que havia levantado da cama.
– Claro que não. E todo meu trabalho? Como fica?
O louro se levantou e andou até a janela.
– Essa chuva vai acabar em alguns minutos, escreve isso – alegou com pouca esperança.
Outro estrondo espantava Dora, mas esse tinha muito mais potência que o anterior. E mais um barulho vinha depois, tirando a atenção dos dois irmãos.
– A rua! – gritou Fred.
Eles correram para a janela da frente e se depararam com o poste de luz no chão, e em poucos segundos toda a energia da casa acabava. Depois daquela lastima, o louro deitou no sofá para acalmar.
– Será que nunca mais teremos um Natal como aqueles que tínhamos antes? – perguntou-se. – Um Natal feliz...
– Nada será como antes – pronunciou Dora – Nem os Natais – completou, indo até a cozinha.
Fred nunca aceitou a idéia de ter perdido seus pais, e sempre tentou ignorar essa realidade. Porém, isso só estimulava a ferida que ele passou a ter depois de um acidente de carro que o fez um filho órfão. Frederico desistiu das luzinhas e foi cochilar na sala por algumas horas.
– Ding dong... Ding dong... – a campainha tocava desenfreadamente.
– Não sabe esperar? – gritou o louro após ser acordado.
Dora desfilava até a porta, segurando uma travessa de bolinhos em meio à escuridão. Ela abriu a porta para seu namorado Claus, que se abraçavam naquele reencontro. Claus era misterioso, supostamente mais velho que a garota, trabalhava como fotógrafo e dizia ter um guru, sua família acredita que ele possa ter relações amorosas com este, mas ninguém conta para Dora, pois todos têm certeza de que a mesma não acreditaria.
– É impossível esperar por essa adorável... Namorada... – disse Claus, beijando-a apaixonadamente.
A luz ainda não tinha retornado totalmente, e o casal aproveitou o ambiente escuro para se beijarem mais ainda.
– Bah! – Dora deu um enorme suspiro e começou a respirar de forma ofegante. – Calma amor, me deixa respirar!
Os dois começam a rir daquela situação. Mas o clima mudava naquele instante, a mulher batia no peitoral do namorado, furiosa.
– Onde você estava? Te liguei o dia inteiro e você só aparece agora?
– Estava com meu guru, as minhas consultas são ininterruptas... Celular tem que estar desligado!
– E o que você aprendeu hoje? – perguntou a mulher, com um sorriso instigante.
– Aprendi que o nosso amor... É mais forte que a distância, que o tempo, que ele jamais se desgastará...
– Humm... Por quê?
– Porque eu pertenço a você... E você a mim... E juntos, somos um só coração.
Aquelas palavras derretiam a mulher, que ignorava o fato de estar segurando a travessa e deixava todos os bolinhos caírem no chão.
– Ops! – exclamou ela, sorrindo levemente. – Adorei suas palavras, elas são tão sinceras...
“Será?” Pensou Fred, enquanto escutava tudo fingindo que estava dormindo no sofá. Claus olhou para o louro e começou a cutucá-lo, para que este acordasse. Aquilo o irritava profundamente, e este levantou mal humorado.
– Algum problema, meu amigo?
– Sim, você! – exclamou, com um olhar de decepção.
– Hihihihihi, você sempre desse jeito não é? – questionou o fotógrafo.
– Desse jeito como?
– Bobo...
– Ah sim – o louro sorriu sarcasticamente.
Dora estava agitada, limpava o estrago que fizera com os bolinhos como se o mundo fosse terminar no outro dia. Quando terminado, fez um chamado.
– Vamos comer!
Naquele Natal, a ceia estava mais vazia... Esse representava a mudança de vida dos irmãos. Agora os desafios tendem a ser mais desafiadores em seus cotidianos. O silêncio toma conta, ninguém abria a boca... Até que as luzinhas começavam a acender por inteiro. A árvore no fundo brilhava intensamente, proporcionando a magia que Fred esperava para aquele momento. O louro levantou e caminho até a árvore, acompanhado do casal que pelo menos poderia ser considerado sua família.
– Bola pra frente... – disse Dora para o irmão, sorrindo levemente.
Vendo os irmãos pensativos, Claus tentou animar o momento.
– Gente! Vamos abrir os presentes, já tá na hora – alegou enquanto olhava seu relógio de pulso.
– Own, estou super ansiosa para abrir o meu!
– Os seus, você quer dizer... Não é, amor?
– Ahn? Quantos você comprou? – perguntou Dora, com a emoção á flor da pele.
– Seu irmão não quis gastar muito, mas você vai surpreender com os presentes que você vai receber.
Fred mudava o olhar para Claus, tentando demonstrar que não entendeu o que ele disse, que não havia gostado nem um pouco. Este disfarçou, e os três abriam os presentes que tinham trocados entre si. Dora ora se mostrava insatisfeita, ora se mostrava o contrário... Enquanto os dois rapazes mal expressavam emoções ao abri-los. Claus não podia ter esquecido a câmera fotográfica, registrou todos os momentos daquela noite até o seu fim. Sua intenção era de ir embora, mas Dora insistiu que ele dormisse ali. Ela estava quente, e agitava ainda mais... Seus olhos brilhavam enquanto encarava o namorado naquele momento romântico.
– No que você está pensando? – perguntou a mulher, com um olhar sedutor.
– No mesmo que você... – respondeu Claus, retribuindo a sedução.
Dora envolvia o namorado, e os dois subiam para o quarto para se desfrutarem de mais uma noite em claro. Naquela altura do campeonato, Fred já havia ido dormir... Para tentar recompor o humor que perdera naquele dia.
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